Alexander Berkman – Algumas Remniscências de Kropotkin

Era cerca de 1890, quando o movimento anarquista na América ainda estava em sua infância. Até então contávamos com apenas meia-dúzia de jovens ardendo de entusiasmos por um sublime ideal, disseminando apaixonadamente a boa nova entre a população de New York Ghetto. Nossas reuniões eram realizadas num obscuro salão na Orchard Street, mas considerávamos aqueles nossos esforços altamente bem-sucedidos. Toda semana compareciam às reuniões um número cada vez maior de pessoas, manifestando um profundo interesse nos ensinamentos revolucionários, e ali eram debatidas noite adentro as questões mais vitais com profunda convicção e visão juvenil. Para muitos de nós, parecia que o capitalismo havia alcançado os limites de suas possibilidades demoníacas e a Revolução Social não poderia estar muito distante. Mas havia também um grande número de questões e problemas intrincados e difíceis de resolver envolvidos no crescimento do movimento, os quais já não conseguíamos resolver satisfatoriamente por nós mesmos. Desejávamos que nosso grande professor Kropotkin estivesse entre nós, ao menos por uma breve visita, a fim de esclarecer alguns pontos mais complexos e assim tirarmos proveito de sua inspiração e apoio intelectual. E então, quanto estímulo sua presença traria ao movimento!

Decidimos reduzir nosso custo de vida ao mínimo e dedicar todos os ganhos para custear as despesas envolvidas no convite de Kropotkin a uma viagem ao redor da América. O assunto foi debatido entusiasticamente nas reuniões do grupo pelos mais ativos e devotados camaradas; todos eram unânimes no grande plano. Uma longa carta foi enviada, convidando nosso professor a participar de um circuito de conferências na América, enfatizando a necessidade de sua presença.

Sua resposta negativa foi um choque: tão certos que estávamos de sua aceitação, tão convencidos da necessidade de sua visita. Mas a admiração que sentíamos por ele apenas cresceu quando escutamos as razões de sua recusa. Ele desejaria muito poder nos visitar – escreveu Kropotkin – e apreciava profundamente o espírito de nosso convite. Esperava visitar os Estados Unidos num futuro próximo e sentiria grande prazer em estar na companhia de tão bons camaradas. Mas naquele momento, não podendo custear sua vinda por conta própria, não usaria do dinheiro do movimento para tal propósito.

Eu ponderei sobre suas palavras. Seu ponto de vista era justo, eu pensava, mas se aplicava apenas a circunstâncias ordinárias. Seu caso, entretanto, eu considerava excepcional, e lamentava profundamente sua decisão de não vir. Mas para mim, suas razões simbolizavam a humanidade e a grandeza de sua natureza. Eu o imaginava como o ideal do revolucionário anarquista.

Anos depois, enquanto eu cumpria pena na Western Penitentiary of Pensylvania, a esperança de encontrar nosso Velho e Grande Kropotkin iluminou as trevas de minha cela por alguns instantes. Amigos notificaram-me que Peter havia chegado ao Estados Unidos através do Canadá, onde havia participado de certo congresso de cientistas. Fui informado que Peter pretendia ver-me, e então passei a contar os dias e as horas aguardando sua tão esperada visita. Mas, não! A sorte não estava a favor do meu encontro com nosso professor e camarada. Em vez de ser chamado para encontrar meu querido visitante, fui solicitado a comparecer no gabinete do Guarda*. Suas mãos seguravam uma carta na qual reconheci a pequena e nítida assinatura de Peter. Sobre o envelope, após o meu nome, Kropotkin havia escrito “Prisioneiro Político”.

O Guarda ficou furioso. “Não existem presos políticos em nosso país livre!”, ele rugiu. E de repente rasgou o envelope em pedaços. Eu enlouqueci com tal profanação. E pronunciei em seguida um caloroso argumento sobre a liberdade americana, no decurso do qual acabei chamando o Guarda de mentiroso. Ele considerou o ocorrido lesa majestade e exigiu que eu me retratasse. Recusei. O resultado foi que ao invés de ver Peter, fui sentenciado a sete dias de solitária, numa cela absolutamente escura, de dois por quatro pés, 15 pés abaixo da terra, com uma mísera fatia de pão como ração diária.

Isso foi por volta do ano de 1895. Nos anos seguintes, Peter Kropotkin visitou a América repetidas vezes, mas não foi possível vê-lo, sobretudo por que cumpria uma sentença em que por dez anos fiquei privado de visitas, não me sendo permitido ver quem quer que fosse. Um quarto de século teve de se passar antes que eu pudesse apertar as mãos de minha companheira. Foi na Rússia, em março de 1920 que me encontrei com Kropotkin pela primeira vez. Ele residia em Dmitrov, uma cidadezinha à 60 verats de Moscou. Eu me encontrava em Petrogrado (Leningrado), e as condições da ferrovia eram tais que viajar do Norte à Dmitrov estava fora de cogitação. Depois, tive a oportunidade de visitar Moscou, onde fiquei sabendo que o Governo havia arranjado uma visita para George Lansbury, editor do London Daily Herald, e um de seus colaboradores, à casa de Kropotkin em Dmitrov. Ao lado dos camaradas A. Schapiro e Emma Goldman, aproveitei a oportunidade.

O encontro com “celebridades” geralmente é desapontador: raramente a realidade coincide com a figura de nossa imaginação. Mas no caso de Kropotkin não foi assim; fisicamente e espiritualmente ele correspondia quase exatamente ao retrato mental que eu tinha dele. Aparentava notoriedade, como em sua fotografia, com seu olhar amável, seu sorriso doce e sua barba farta. Cada vez que Kropotkin adentrava o recinto, parecia iluminá-lo com sua presença. Sua marca de idealista era tão impressionante que a espiritualidade de sua personalidade podia quase ser sentida. Mas assustava-me a visão de seu definhamento e debilitamento.

Kropotkin recebia a merenda acadêmica, consideravelmente superior à ração destinada aos cidadãos comuns. Mas não era nem de perto suficiente para manter-se vivo e era uma verdadeira batalha espantar o lobo da fome. Questões de gasolina e iluminação eram matéria de preocupação constante. Os invernos eram severos e a madeira muito escassa; querosene de difícil obtenção, e queimar mais de uma lamparina por casa era considerado luxúria. Esta carência foi particularmente sentida por Kropotkin; e interferiu gravemente em seu labor literário.

A família de Kropotkin foi desalojada de sua residência em Moscou diversas vezes, pois as dependências eram constantemente requisitadas [sic] à propósitos governamentais. Foi então que decidiram se mudar para Dmitrov. Ficava apenas à meia centena de verats da capital, se bem que poderia distar mil milhas, tamanho o isolamento em que vivia Kropotkin. Seus amigos raramente podiam vê-lo; notícias do mundo Ocidental, trabalhos científicos, ou publicações estrangeiras eram inalcançáveis. Naturalmente, Kropotkin sentia profunda falta de companhia intelectual e relaxamento mental.

Estava ansioso para me instruir acerca de suas perspectivas sobre a situação da Rússia, mas logo percebi que Peter não se sentia completamente à vontade para se expressar na presença dos visitantes ingleses. A conversação, portanto, foi de caráter geral. Mas pelo menos uma de suas observações foi muito significativa e me deu a chave de sua atitude. “Eles mostraram”, disse ele se referindo aos Bolcheviques, “como a Revolução não deve ser feita”. Eu sabia, naturalmente, que enquanto anarquista, Kropotkin não aceitaria nenhum posto no Governo, mas queria saber o porquê dele não participar da reconstrução econômica da Rússia. Apesar de velho e fraco fisicamente, suas sugestões e conselhos poderiam ser muito úteis à Revolução, e sua influência de grande vantagem e encorajamento para o movimento anarquista. Acima de tudo, eu tinha interesse em escutar suas idéias positivas sobre a conduta da Revolução. Pois o que tinha escutado até então da oposição revolucionária em sua maioria eram apenas críticas privadas da útil construtividade.

Aquela manhã se passou numa conversa desconexa sobre as atividades no front, sobre o crime do bloco aliado bloqueando remédio aos doentes, sobre a disseminação de doenças como resultado das condições insalubres e da escassez de alimentos. Kropotkin aparentava cansaço e parecia exausto com a mera presença dos visitantes. Estava velho e fraco; e eu temia que, em tais condições, não viveria por muito tempo. Estava claramente subnutrido, embora tenha dito que os anarquistas da Ucrânia facilitavam-lhe suprimentos de farinha e outros produtos. Quando Makhno ainda mantinha relação amigável com os Bolcheviques, também habilitou-se a fornecer víveres. Para que Peter não se fatigasse demais, logo o deixamos a sós.

Alguns meses depois tive outra chance de visitar nosso velho camarada. Era verão e Peter parecia ter rejuvenescido com a ressurreição da Natureza. Parecia mais jovem, com boa saúde e cheio de espírito de juventude. Sem a presença de estranhos, como aquele jornalista inglês, ele se sentia em casa, e conversávamos livremente sobre as condições russas e sobre suas atitudes e perspectivas quanto ao futuro. Era o genial e velho Peter novamente, com um senso de humor refinado, observações afiadas e a mais generosa humanidade. Num primeiro momento, censurou-me por minha posição anti-Guerra, mas rapidamente  o assunto mudou para canais menos periculosos. A Rússia era o nosso principal ponto de discussão. As condições eram terríveis, todos estavam de acordo, e a Ditadura era o crime mor dos Bolcheviques. Mas não havia razão para perder a fé, assegurava-me. A Revolução e as massas são bem maiores do que qualquer Partido político e suas maquinações. Estes últimos podem triunfar temporariamente, mas o coração das massas russas é incorruptível e chegará por si mesma ao claro entendimento do mal da Ditadura e da tirania Bolchevique. A vida russa atual, dizia ele, é uma condição artificial forçada pela classe governante. O governo de um pequeno Partido, fundado em falsas teorias, métodos violentos, erros medonhos e ineficiência generalizada. Suprimiam a própria iniciativa e expressão da vontade do povo, que sozinhas bastariam para reconstruir a arruinada vida econômica do país. A estúpida atitude dos Poderes Aliados, o bloqueio e os ataques à Revolução pelos intervencionistas ajudavam a reforçar o poder do regime Comunista. Mas as coisas mudariam quando as massas despertassem para a compreensão de que ninguém, nenhum Partido político ou grupelho governamental, deve ter a permissão de, no futuro, monopolizar a Revolução, controlá-la, ou dirigi-la, pois tal intento resultaria inevitavelmente na morte da própria revolução.

Naquela ocasião, discutimos várias outras fases da Revolução. Kropotkin enfatizava particularmente o lado construtivo das revoluções, especialmente que a organização da vida econômica deveria ser tratada como a primeira e a maior necessidade de uma revolução, como o fundamento de sua existência e de seu desenvolvimento. Este pensamento, ele quis imprimir mais forçosamente, para que servisse de guia nas grandes batalhas vindouras do proletariado internacional.

Meus encontros com nosso querido Peter foram para mim um enorme prazer intelectual e espiritual . Eu estava partindo da Ucrânia para uma longa viagem em prol do Museu da Revolução de Petrogrado, e ainda esperava fazer muitas outras visitas ao nosso velho e bravo professor de coração e cérebro tão maravilhosos. Não foi bem assim. Ele morreu alguns meses depois, em 8 de fevereiro de 1921. Só pude alcançar seu leito de morte a tempo de dizer meu último adeus. Um grande Homem, um grande anarquista havia partido.

Nota do Editor:

* O Guarda (The Warden) é o governador da prisão e seu ditador absoluto.

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This manuscript is part of the International Institute of Social History’s Alexander Berkman Archive and appears in Anarchy Archives with IISH’s permission.

Atualizado: 03/07/2011