Durruti – Entrevista por Pierre van Paasen

Entrevista por Pierre van Paassen concedida em 24 de julho de 1936, publicado no The Toronto Daily Star em 5 de agosto de 1936.

Em setembro, após a libertação de Aragão das forças de Franco, Durruti foi entrevistado por Pierre van Paasen do jornal Toronto Star. Nesta entrevista ele conta um pouco de suas visões acerca de temas como fascismo, governo e revolução social. Embora estas considerações apareçam aqui já traduzidas em inglês – pois nunca foram escritas em espanhol – vale a pena reproduzi-las.

Para nós”, disse Durruti, “é uma questão de esmagar o fascismo de uma vez por todas. Sim; e apesar do Governo”.

Nenhum governo do mundo combate o fascismo até a morte. Quando a burguesia vê o seu poder escorrendo pelas mãos, recorre ao fascismo para manter seus privilégios. O Governo Liberal da Espanha poderia há muito tempo ter rendido os incipientes elementos fascistas. Mas ao invés disso preferiu flertar e se envolver com eles. E mesmo nos dias de hoje, dentro do nosso Governo, na atual conjuntura, há homens querendo pegar leve com os rebeldes [fascistas]”.

Durruti riu. “Nunca se sabe, o atual Governo pode precisar das forças rebeldes para, mais tarde, esmagar o movimento dos trabalhadores…”

Sabemos o que queremos. E para nós, não significa nada daquilo que se passa na União Soviética, em que Stalin sacrifica a paz e tranquilidade dos trabalhadores da Alemanha e da China para os bárbaros fascistas. Queremos a revolução na Espanha aqui e agora, não para depois, talvez, da próxima Guerra Européia. Estamos dando à Hitler e Mussolini muito mais trabalho com nossa revolução do que todo o Exército Vermelho da Rússia. Estamos dando um exemplo à classe trabalhadora alemã e italiana de como se deve lidar com o fascismo.”

Não espero ajuda de nenhum Governo do mundo em favor de uma revolução libertária… Não esperamos ajuda, em última análise, nem mesmo do nosso próprio Governo”.

Mas”, interpôs van Paasen, “assim você estará sentado sobre uma pilha de escombros”.

Durruti respondeu: “Sempre vivemos em barracos e casebres. Saberemos bem nos acomodar por algum tempo. Pois não se deve esquecer que somos capazes de construir. Somos nós, os trabalhadores, que construímos os palácios e as cidades da Espanha, da América e de qualquer outro lugar do mundo. Nós, os trabalhadores, poderemos construir outros para substituí-los. E outros ainda melhores! Não temos o menor receio das ruínas. Herdaremos a terra; não temos a menor dúvida. A burguesia pode pilhar e devastar seu próprio mundo antes de abandonar o palco da história. Trazemos um novo mundo, bem aqui, em nossos corações. Este mundo está crescendo agora mesmo.”

 

Fonte: http://flag.blackened.net/revolt/spain/durruti_interview.html

Tradução: J.P.M.S.

Colin Ward – Zonas Autônomas Temporárias

Colin Ward - Zonas Autônomas Temporárias
Colin Ward – Zonas Autônomas Temporárias

VERVE: Revista Semestral do NU-SOL – Núcleo de Sociabilidade Libertária / Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº19 ( Maio 2011 – ). – São Paulo: o Programa, 2011 – semestral.

  • Revista completa, link aqui.
  • Colin Ward – Zonas Autônomas Temporárias (Separata), link aqui.

Emma Goldman – A Anarquia e a Questão do Sexo & Outros Escritos

Emma Goldman - A Anarquia e a Questão do Sexo
Emma Goldman – A Anarquia e a Questão do Sexo & Outros Escritos

Difusão Libertária #002 – Emma Goldman – Anarquismo e a Questão do Sexo e Outros Escritos. Recife: Difusão Libertária, 2014. 100p.

Você pode encontrar este livro aqui.

Textos de Emma Goldman:

  1. Anarquismo: o que ele realmente representa
  2. Mãe Terra (Emma Goldman & Max Baginski)
  3. Anarquia e a questão do sexo
  4. Casamento e amor
  5. Sindicalismo: a ameaça moderna ao capitalismo

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Saul Newman – Pós-Anarquismo

O pós-anarquismo emerge como uma nova corrente importante no pensamento anarquista, e vem se tornando fonte de crescente interesse e debate entre ativistas anarquistas e pesquisadores afins, bem como em círculos acadêmicos mais amplos. Dado o número de sites na internet, grupos de discussão, livros sendo lançados e periódicos aparecendo sobre o pós-anarquismo, é hora deste desafio colocado ao pensamento e à prática anarquista clássica ser levado mais a sério.

Pós-anarquismo se refere a um amplo corpo teórico – arrolando teoria política, filosofia, estética, estudos de filmes e literatura – que tenta explorar novas direções no pensamento e na política anarquista. Ao passo que inclui diferentes perspectivas e trajetórias, a contenção central do pós-anarquismo é que os novos fenômenos culturais e diretrizes teóricas devem ser levados em conta pela filosofia anarquista clássica, em particular, a pós-modernidade e o pós-estruturalismo. Ao passo que estas categorias teóricas causaram grande impacto sobre diferentes áreas do pensamento e da pesquisa, bem como na política, o anarquismo tende a permanecer resistente a estes desdobramentos e continua a trabalhar com um framework1 epistemológico humanista do Esclarecimento, o qual, ao ver de muitos, é necessário atualizar [updating]. Ao mesmo tempo em que o anarquismo – como forma de prática e teoria política – está se tornando cada vez mais importante para os movimentos sociais globais e as lutas radicais de hoje, suplantando o marxismo em grande medida. O pós-anarquismo busca revitalizar a teoria anarquista à luz destas novas formas de luta e resistência. Entretanto, ao invés de abandonar a tradição do anarquismo clássico, o pós-anarquismo busca, ao contrário, explorar seu potencial e radicalizar as suas possibilidades. Permanecendo completamente coerente, eu sugeriria, com o horizonte libertário e igualitário do anarquismo; ainda que procure ampliar os termos do pensamento anti-autoritário para incluir uma análise crítica da linguagem, do discurso, da cultura e das novas modalidades do poder. Nesse sentido, o pós-anarquismo não entende que o pós signifique simplesmente vir “após” o anarquismo, mas pós no sentido de trabalhar os limites do pensamento anarquista e expandi-los, revelando suas imprevisíveis e heterogêneas possibilidades.

Esta edição [da Revista] explora algumas destas novas abordagens à teoria e a prática anarquista. O ensaio de Benjamin Noys é importante a esse respeito, pois busca realçar uma série de problemas e limitações conceituais e práticas que estas novas abordagens anarquistas por vezes se deparam. Seu ensaio explora a proximidade – bem como a distância crítica – do pensador contemporâneo Alain Badiou ao anarquismo. Ao passo que o pensamento político de Badiou parece refletir certas idéias anarquistas sobre política radical, autônoma em relação ao Partido e ao Estado, ele também é extremamente crítico ao anarquismo, e especialmente ao que ele enxerga como sendo o elemento libertário do movimento anticapitalista global. Para Badiou, esses “ativistas” anti-globalização – inspirando-se em temas de fluxo, fluxos de desejo e desterritorialização, derivados de pós-estruturalistas como Deleuze e Guatarri, bem como Hardt e Negri – fetichizam e, em certo sentido, mimetizam o próprio movimento do capitalismo global, sendo incapazes de ganhar dele qualquer distânciamento crítico. Noys usa essa crítica para trabalhar questões de estratégia, organização e coerência, que são centrais para a política anti-autoritária radical de hoje – por exemplo, a questão de se há verdadeiramente uma prática política anarquista contemporânea e se ela poderia avançar algum ponto prescindindo de alguma forma de organização; e ainda, a noção de organização poderia ser repensada para se permitir a forma partidária, mas de modo não-conflitante com o compromisso anarquista com formas descentralizadas e não-hierárquicas de militância?

Ao contrário do que certos ativistas e pesquisadores anarquistas afirmam, o pós-anarquismo não está confinado ao mundo das abstrações teóricas; mas diz respeito a formas concretas de política ativista.

No ensaio de um dos maiores teóricos do anarquismo pós-estruturalista2, Todd May oferece uma interpretação pós-anarquista de um movimento político no Canadá que luta pelo direito dos imigrantes “ilegais” algerianos, os sans-statuts (aqueles sem status legal de refugiado). A questão dos imigrantes “ilegais” e dos direitos daqueles que, como dizia Arendt, nem ao menos tem o direito de terem direitos, está emergindo como um dos grandes pontos de antagonismo no capitalismo global – lugar para o novo barbarismo biopolítico da soberania de estado, bem como lugar para a emergência de novas formas de política e ativismo radical3. May utiliza o pensamento do filósofo Jacques Rancière4 – que a seu ver faz uma grande contribuição ao anarquismo e às teorias políticas radicais em geral – para explorar uma lógica política baseada na pressuposição da igualdade. Para Rancière, a política se inicia com o fato da igualdade, ao invés de enxergá-la como objetivo a ser alcançado – e a asserção de tal fato como elemento de uma campanha política particular tem o potencial de romper com a ordem política e social existente, baseada sobre relações de desigualdade, hierarquia e autoridade (que Rancière chama de “ordem policial”). Do mesmo modo, como mostra May, os algerianos sans-statuts no Canadá – aqueles absolutamente excluídos da ordem dominante e relegados à base da hierarquia social – foram capazes de se mobilizar como se fossem absolutamente iguais ao restante da sociedade e como se tivessem os mesmos direitos que qualquer outro. Ao meu ver, este é um genuíno exemplo de política “pós-anarquista”: uma luta concreta, localizada, enraizada, engajada por aqueles diretamente interessados, mas que, importantemente, são ao mesmo tempo capazes de transcender sua posição de particularidade e inscreverem-se no horizonte universal da igualdade.

A questão da universalidade é importante para o pós-anarquismo, e é esta questão que Benjamin Franks desenvolve em relação à ética. Franks explora a dimensão ética da teoria anarquista e pós-anarquista, e tenta desenvolver uma compreensão de ética que, por um lado permita a universalização do imperativo categórico kantiano, e por outro, um subjetivismo ético que Franks atribui a Max Stirner e (um tanto injustamente eu penso) a mim5. Para Franks, ambas as posições são incompatíveis com a prática política anarquista. Como alternativa, ele propõe a noção de éticas internas às práticas e identidades particulares, negociáveis no tempo e abertas ao diálogo crítico. Franks está correto em mostrar que o anarquismo está profundamente preocupado com as questões éticas e seu ensaio faz uma importante contribuição ao pensar uma forma propriamente anarquista de ética, enquanto fundamentada em práticas particulares e situações concretas, e ainda propondo certas normas e regras que fomentam relacionamentos solidários e não-hierárquicos com os outros. Eu concordo inteiramente com sua abordagem ética, e acrescentaria simplesmente que ela é inteiramente compatível com o pós-anarquismo. Apesar do que muitos críticos alegam – e esta alegação está mais ou menos presente no ensaio de Franks – o pós-anarquismo não equivale ao niilismo moral e ao subjetivismo ético. Nem sequer a filosofia do egoísmo de Stirner – como tentei mostrar em outro lugar – prescinde de uma ética, e, com efeito, ainda oferece margem a certas formas de solidariedade social, implícitas em sua noção de “associação dos egoístas”. De todo modo, Franks faz uma intervenção importante explorando os contornos ético-políticos do pensamento anti-autoritário contemporâneo. Ao lado da ética, outro grande interesse do pós-anarquismo é o papel das imagens, dos símbolos e da linguagem na construção das identidades e significados políticos. Diferentemente dos anarquistas clássicos, que viam uma coerência racional nas relações sociais e na base destas identidades sociais uma essência humana, uma análise pós-anarquista privilegiaria por sua vez a função da linguagem e da ordem simbólica na criação dos significados sociais e políticos. Entretanto, ao invés dos significados e identidades serem fixos a uma estrutura estável, eles são inerentemente instáveis e abertos a diferentes e contingentes articulações. Este ponto precisamente é enfatizado por Lewis Call, que desenvolve uma abordagem caracteristicamente pós-moderna às práticas e discursos anti-autoritários, através de uma análise da cultura popular, em particular do filme e da literatura6.

Em seu ensaio, ele explora a graphic novel (1981), e depois a versão filme (2006), V de Vingança [V for Vendetta], enxergando-a como um tipo de narrativa política pós-anarquista. Aqui é central a noção de “significante flutuante” – derivada da psicanálise lacaniana – na qual um símbolo ou uma palavra em particular não estão fixos a um conteúdo particular qualquer, mas são móveis e podem produzir diferentes significados. Os exemplos que Call nos dá são os da figura histórica de Guy Fawkes, e também o do personagem “V” que invoca Fawkes diretamente como símbolo de resistência contra a autoridade do Estado. Em particular “V”, porque permanecendo mascarado, e deste modo anônimo, opera como um tipo de presença vazia pela qual a autoridade política é desestabilizada e uma resistência coletiva é mobilizada. A importante lição a se destacar da análise de Call é que a dominação política reside em certo controle e manipulação dos símbolos, imagens e discursos – e, portanto, qualquer resistência efetiva deve almejar uma desestabilização e uma re-significação destas mesmas formas. A luta contra a autoridade toma lugar a nível simbólico e até mesmo visual – com efeito, não há aqui separação entre política simbólica e política “efetiva”. Para ver exemplos disso, basta ver os usos politicamente inovadores e criativos de símbolos e imagens nas manifestações globais de anti-capitalismo.

Um pensador que admite a importância do visual e da estética na política radical é Jacques Rancière, a quem me referi acima. Em sua obra mais recente, Rancière ao refletir a ligação entre arte e política enfatizou o significado político da estética, particularmente na idéia de que a política perturba os “regimes” de visibilidade existentes7. A política, em outras palavras, diz respeito a conflitos que giram em torno daquilo que é visível e invisível, e a arte, portanto, pode contribuir para uma reconfiguração da percepção e do espaço, através da qual novos significados políticos possam emergir. Numa entrevista conduzida por mim, Noys e May, Rancière reflete sobre a posição do artista, bem como as implicações “anarquistas” de seu próprio pensamento político, e responde a questões mais gerais sobre o estado da política radical de hoje. Como o leitor já deve ter percebido, vejo Rancière como um pensador cuja obra tem grandes implicações para o anarquismo: ao passo que se aparta do anarquismo clássico em importantes aspectos – particularmente ao rejeitar a oposição conceitual entre Estado “artificial” e Sociedade “natural” – também propõe novos modos de pensar a emancipação, a igualdade, a democracia e a política anti-autoritária.

Como mostra esta edição, o pós-anarquismo não é uma doutrina ou prática política unificada, e levanta muito mais questões e problemas do que respostas. É melhor enxergá-lo como um campo de pesquisa que procura explorar, desenterrar, interrogar, repensar e revitalizar muitos aspectos da teoria anarquista. Mas, uma coisa é certa: a situação contemporânea exige que o anarquismo seja pensado e praticado novamente.

Notas do Autor:

1. Isso foi descrito por Isaiah Berlin para envolver um compromisso com três princípios: que todas as genuínas questões podem ser respondidas; que todas perguntas são conhecíveis e que todas as respostas devem também ser compatíveis. Ver Roots of Romanticism (1999, pp. 21-2) – RK. N. do A.

2. Ver Todd May, The Political Philosophy of Poststructuralist Anarchism, University Park PA: University of Pennsylvania Press, 1994. N. do A.

3. Ver por exemplo a network de ação direta No Borders. N. do A.

4. May escreveu extensivamente sobre Rancière, e publicou um livro entitulado The Political Thought of Jacques Rancière: creating equality, Edinburgh: Edinburgh University Press, 2008. N. do A.

5. Franks define estes termos em seu ensaio – RK. N. do A.

6. Ver Lewis Call, Postmodern Anarchism, Lanham MD: Lexington Books, 2003. N. do A.

7. Ver Jacques Ranciere, The Politics of Aesthetics: the distribution of the sensible, trans. Gabriel Rockhill, New York: Continuum, 2004. N. do A.

Original: Anarchist Studies; Volume 16, 2008 No.2. Editorial, Saul Newman.

EDITORIAL; ANACHIST STUDIES v. 16.2

Revisão: 08/07/2011

Alexander Berkman – Algumas Remniscências de Kropotkin

Era cerca de 1890, quando o movimento anarquista na América ainda estava em sua infância. Até então contávamos com apenas meia-dúzia de jovens ardendo de entusiasmos por um sublime ideal, disseminando apaixonadamente a boa nova entre a população de New York Ghetto. Nossas reuniões eram realizadas num obscuro salão na Orchard Street, mas considerávamos aqueles nossos esforços altamente bem-sucedidos. Toda semana compareciam às reuniões um número cada vez maior de pessoas, manifestando um profundo interesse nos ensinamentos revolucionários, e ali eram debatidas noite adentro as questões mais vitais com profunda convicção e visão juvenil. Para muitos de nós, parecia que o capitalismo havia alcançado os limites de suas possibilidades demoníacas e a Revolução Social não poderia estar muito distante. Mas havia também um grande número de questões e problemas intrincados e difíceis de resolver envolvidos no crescimento do movimento, os quais já não conseguíamos resolver satisfatoriamente por nós mesmos. Desejávamos que nosso grande professor Kropotkin estivesse entre nós, ao menos por uma breve visita, a fim de esclarecer alguns pontos mais complexos e assim tirarmos proveito de sua inspiração e apoio intelectual. E então, quanto estímulo sua presença traria ao movimento!

Decidimos reduzir nosso custo de vida ao mínimo e dedicar todos os ganhos para custear as despesas envolvidas no convite de Kropotkin a uma viagem ao redor da América. O assunto foi debatido entusiasticamente nas reuniões do grupo pelos mais ativos e devotados camaradas; todos eram unânimes no grande plano. Uma longa carta foi enviada, convidando nosso professor a participar de um circuito de conferências na América, enfatizando a necessidade de sua presença.

Sua resposta negativa foi um choque: tão certos que estávamos de sua aceitação, tão convencidos da necessidade de sua visita. Mas a admiração que sentíamos por ele apenas cresceu quando escutamos as razões de sua recusa. Ele desejaria muito poder nos visitar – escreveu Kropotkin – e apreciava profundamente o espírito de nosso convite. Esperava visitar os Estados Unidos num futuro próximo e sentiria grande prazer em estar na companhia de tão bons camaradas. Mas naquele momento, não podendo custear sua vinda por conta própria, não usaria do dinheiro do movimento para tal propósito.

Eu ponderei sobre suas palavras. Seu ponto de vista era justo, eu pensava, mas se aplicava apenas a circunstâncias ordinárias. Seu caso, entretanto, eu considerava excepcional, e lamentava profundamente sua decisão de não vir. Mas para mim, suas razões simbolizavam a humanidade e a grandeza de sua natureza. Eu o imaginava como o ideal do revolucionário anarquista.

Anos depois, enquanto eu cumpria pena na Western Penitentiary of Pensylvania, a esperança de encontrar nosso Velho e Grande Kropotkin iluminou as trevas de minha cela por alguns instantes. Amigos notificaram-me que Peter havia chegado ao Estados Unidos através do Canadá, onde havia participado de certo congresso de cientistas. Fui informado que Peter pretendia ver-me, e então passei a contar os dias e as horas aguardando sua tão esperada visita. Mas, não! A sorte não estava a favor do meu encontro com nosso professor e camarada. Em vez de ser chamado para encontrar meu querido visitante, fui solicitado a comparecer no gabinete do Guarda*. Suas mãos seguravam uma carta na qual reconheci a pequena e nítida assinatura de Peter. Sobre o envelope, após o meu nome, Kropotkin havia escrito “Prisioneiro Político”.

O Guarda ficou furioso. “Não existem presos políticos em nosso país livre!”, ele rugiu. E de repente rasgou o envelope em pedaços. Eu enlouqueci com tal profanação. E pronunciei em seguida um caloroso argumento sobre a liberdade americana, no decurso do qual acabei chamando o Guarda de mentiroso. Ele considerou o ocorrido lesa majestade e exigiu que eu me retratasse. Recusei. O resultado foi que ao invés de ver Peter, fui sentenciado a sete dias de solitária, numa cela absolutamente escura, de dois por quatro pés, 15 pés abaixo da terra, com uma mísera fatia de pão como ração diária.

Isso foi por volta do ano de 1895. Nos anos seguintes, Peter Kropotkin visitou a América repetidas vezes, mas não foi possível vê-lo, sobretudo por que cumpria uma sentença em que por dez anos fiquei privado de visitas, não me sendo permitido ver quem quer que fosse. Um quarto de século teve de se passar antes que eu pudesse apertar as mãos de minha companheira. Foi na Rússia, em março de 1920 que me encontrei com Kropotkin pela primeira vez. Ele residia em Dmitrov, uma cidadezinha à 60 verats de Moscou. Eu me encontrava em Petrogrado (Leningrado), e as condições da ferrovia eram tais que viajar do Norte à Dmitrov estava fora de cogitação. Depois, tive a oportunidade de visitar Moscou, onde fiquei sabendo que o Governo havia arranjado uma visita para George Lansbury, editor do London Daily Herald, e um de seus colaboradores, à casa de Kropotkin em Dmitrov. Ao lado dos camaradas A. Schapiro e Emma Goldman, aproveitei a oportunidade.

O encontro com “celebridades” geralmente é desapontador: raramente a realidade coincide com a figura de nossa imaginação. Mas no caso de Kropotkin não foi assim; fisicamente e espiritualmente ele correspondia quase exatamente ao retrato mental que eu tinha dele. Aparentava notoriedade, como em sua fotografia, com seu olhar amável, seu sorriso doce e sua barba farta. Cada vez que Kropotkin adentrava o recinto, parecia iluminá-lo com sua presença. Sua marca de idealista era tão impressionante que a espiritualidade de sua personalidade podia quase ser sentida. Mas assustava-me a visão de seu definhamento e debilitamento.

Kropotkin recebia a merenda acadêmica, consideravelmente superior à ração destinada aos cidadãos comuns. Mas não era nem de perto suficiente para manter-se vivo e era uma verdadeira batalha espantar o lobo da fome. Questões de gasolina e iluminação eram matéria de preocupação constante. Os invernos eram severos e a madeira muito escassa; querosene de difícil obtenção, e queimar mais de uma lamparina por casa era considerado luxúria. Esta carência foi particularmente sentida por Kropotkin; e interferiu gravemente em seu labor literário.

A família de Kropotkin foi desalojada de sua residência em Moscou diversas vezes, pois as dependências eram constantemente requisitadas [sic] à propósitos governamentais. Foi então que decidiram se mudar para Dmitrov. Ficava apenas à meia centena de verats da capital, se bem que poderia distar mil milhas, tamanho o isolamento em que vivia Kropotkin. Seus amigos raramente podiam vê-lo; notícias do mundo Ocidental, trabalhos científicos, ou publicações estrangeiras eram inalcançáveis. Naturalmente, Kropotkin sentia profunda falta de companhia intelectual e relaxamento mental.

Estava ansioso para me instruir acerca de suas perspectivas sobre a situação da Rússia, mas logo percebi que Peter não se sentia completamente à vontade para se expressar na presença dos visitantes ingleses. A conversação, portanto, foi de caráter geral. Mas pelo menos uma de suas observações foi muito significativa e me deu a chave de sua atitude. “Eles mostraram”, disse ele se referindo aos Bolcheviques, “como a Revolução não deve ser feita”. Eu sabia, naturalmente, que enquanto anarquista, Kropotkin não aceitaria nenhum posto no Governo, mas queria saber o porquê dele não participar da reconstrução econômica da Rússia. Apesar de velho e fraco fisicamente, suas sugestões e conselhos poderiam ser muito úteis à Revolução, e sua influência de grande vantagem e encorajamento para o movimento anarquista. Acima de tudo, eu tinha interesse em escutar suas idéias positivas sobre a conduta da Revolução. Pois o que tinha escutado até então da oposição revolucionária em sua maioria eram apenas críticas privadas da útil construtividade.

Aquela manhã se passou numa conversa desconexa sobre as atividades no front, sobre o crime do bloco aliado bloqueando remédio aos doentes, sobre a disseminação de doenças como resultado das condições insalubres e da escassez de alimentos. Kropotkin aparentava cansaço e parecia exausto com a mera presença dos visitantes. Estava velho e fraco; e eu temia que, em tais condições, não viveria por muito tempo. Estava claramente subnutrido, embora tenha dito que os anarquistas da Ucrânia facilitavam-lhe suprimentos de farinha e outros produtos. Quando Makhno ainda mantinha relação amigável com os Bolcheviques, também habilitou-se a fornecer víveres. Para que Peter não se fatigasse demais, logo o deixamos a sós.

Alguns meses depois tive outra chance de visitar nosso velho camarada. Era verão e Peter parecia ter rejuvenescido com a ressurreição da Natureza. Parecia mais jovem, com boa saúde e cheio de espírito de juventude. Sem a presença de estranhos, como aquele jornalista inglês, ele se sentia em casa, e conversávamos livremente sobre as condições russas e sobre suas atitudes e perspectivas quanto ao futuro. Era o genial e velho Peter novamente, com um senso de humor refinado, observações afiadas e a mais generosa humanidade. Num primeiro momento, censurou-me por minha posição anti-Guerra, mas rapidamente  o assunto mudou para canais menos periculosos. A Rússia era o nosso principal ponto de discussão. As condições eram terríveis, todos estavam de acordo, e a Ditadura era o crime mor dos Bolcheviques. Mas não havia razão para perder a fé, assegurava-me. A Revolução e as massas são bem maiores do que qualquer Partido político e suas maquinações. Estes últimos podem triunfar temporariamente, mas o coração das massas russas é incorruptível e chegará por si mesma ao claro entendimento do mal da Ditadura e da tirania Bolchevique. A vida russa atual, dizia ele, é uma condição artificial forçada pela classe governante. O governo de um pequeno Partido, fundado em falsas teorias, métodos violentos, erros medonhos e ineficiência generalizada. Suprimiam a própria iniciativa e expressão da vontade do povo, que sozinhas bastariam para reconstruir a arruinada vida econômica do país. A estúpida atitude dos Poderes Aliados, o bloqueio e os ataques à Revolução pelos intervencionistas ajudavam a reforçar o poder do regime Comunista. Mas as coisas mudariam quando as massas despertassem para a compreensão de que ninguém, nenhum Partido político ou grupelho governamental, deve ter a permissão de, no futuro, monopolizar a Revolução, controlá-la, ou dirigi-la, pois tal intento resultaria inevitavelmente na morte da própria revolução.

Naquela ocasião, discutimos várias outras fases da Revolução. Kropotkin enfatizava particularmente o lado construtivo das revoluções, especialmente que a organização da vida econômica deveria ser tratada como a primeira e a maior necessidade de uma revolução, como o fundamento de sua existência e de seu desenvolvimento. Este pensamento, ele quis imprimir mais forçosamente, para que servisse de guia nas grandes batalhas vindouras do proletariado internacional.

Meus encontros com nosso querido Peter foram para mim um enorme prazer intelectual e espiritual . Eu estava partindo da Ucrânia para uma longa viagem em prol do Museu da Revolução de Petrogrado, e ainda esperava fazer muitas outras visitas ao nosso velho e bravo professor de coração e cérebro tão maravilhosos. Não foi bem assim. Ele morreu alguns meses depois, em 8 de fevereiro de 1921. Só pude alcançar seu leito de morte a tempo de dizer meu último adeus. Um grande Homem, um grande anarquista havia partido.

Nota do Editor:

* O Guarda (The Warden) é o governador da prisão e seu ditador absoluto.

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This manuscript is part of the International Institute of Social History’s Alexander Berkman Archive and appears in Anarchy Archives with IISH’s permission.

Atualizado: 03/07/2011